E de repente os 39 estão à porta. Aquela porta antes d’A Porta. E na maior parte dos dias não é estranho. As marcas em redor dos olhos vão-se tornando presença habitual no espelho e até pontuam os sorrisos de uma forma madura. Os cabelos brancos, mais que aqueles que seria possível contar, não destoam e até acrescentam cor (todas elas, em teoria). Noutros dias, são elementos insuportáveis que poluem a minha juventude eterna. (Pintar ou não pintar, eis a minha mais recente angústia.)
Nestes momentos, gosto de pensar nos meus colegas de faculdade. Todos a escorregar dos 38 para os 39 durante este ano. Queria muito perscrutar-lhes as mentes e saber como é ter esta idade para cada um deles. (Deviam acrescentar esta pergunta nos próximos censos: Como está a lidar com a vida adulta e o envelhecimento?) Dantes falávamos das férias, das saídas, dos empregos que queríamos e das direções que sonhávamos, de quem gostava de quem, de quem tinha acabado com quem, de quem andava enrolado com quem. Agora falamos das conquistas dos filhos, dos horários das empregadas, dos aspiradores turbo sem fios, de quem gosta de quem, de quem acabou com quem, de quem anda enrolado com quem.
Nunca eu sonhei em fazer 39. Não por algum medo de lá não chegar. Apenas pela incapacidade de projetar uma realidade tão distante e sobre a qual sabia tão pouco. Ou se calhar até sabia algo, mas à medida que assistia aos pais (os das vida real e os da ficção) a viverem as suas vidas e fazia o meu caminho na direção desse número, apercebi-me de que o que acabava por viver se revelava sempre diferente do que tinha imaginado que iria ser. Suponho que algures no tempo, tive de os abandonar como referência e aceitar que a minha viagem é feita num mapa só meu.

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