Autor: rita ralha

  • Como eu amo viver no século XXI

    Hoje de manhã, enquanto abotoava a camisa branca do dia de olhos postos na massa cinzenta que ocupava o céu, gritei para a Siri e perguntei-lhe se precisava de levar chapéu de chuva. Ela disse que era melhor. 

    Isto, aliado ao facto de ela me chamar Rita Master of the Universe, é coisa para alegrar o meu dia independentemente de quantidade de chuvas de granizo que me caiam em cima só porque sou demasiado orgulhosa para andar de chapéu de chuva (estou a desejar ardentemente que este orgulho otário se dissipe aos 30, pois passo a vida de cabelo encaracolado e não são lindas beach waves). 

  • Preciosidades com o condão de mudar a vida de qualquer um igual a mim (i.e. satisfação máxima com o mínimo)

    Aprendi recentemente que andei 29 anos a descolar post-its de forma errada (tantas imperfeições que poderia ter evitado quando aos 10 meses colava post-its nos biberons para distinguir o da manhã do da tarde…). 

    Arranca-se o post-it do bloco puxando pelo lado e não por baixo, de forma a evitar post-its de saia levantada Monroe sobre a grade do metro style.

  • QI maximus

    Hoje, fiquei a saber confirmadamente que no hemisfério sul a água no ralo corre para o outro lado.

    Atingi o cume da pesquisa do conhecimento. Posso ir para o sofá ver TVI para o resto da vida. 
    Vemo-nos daqui a pouco, Goucha. 
  • Privates verdadeiras

    O que eu me rio quando em vez de me sair Rita, sai Rota. 
  • Vou lançar a teoria

    A bolacha Torrada bate de longe a bolacha Maria. 
  • As minhas infelicidades são do mais leviano que há

    Levar com gotas de água na cabeça é a epítome da humilhação pública para mim. É uma sensação de total falta de controlo do meu destino. EU é que devia decidir quando fico encharcada. EU é que devia decidir que tipo de água nojenta é que quero em cima de mim. 

    Pior só mesmo quando as gotas acertam em cheio nos óculos e fico com aquele ar trágico-nerd de olhos esbugalhados e sem amigos. 
  • Estou a sofrer do síndrome o rabo não me cabe nas calças.

    Bem, ele até cabe, mas fica ali estrafegado género saco de cama enfiado a
    extremo custo dentro do seu saquinho protetor após 3 dias de festival de verão (por favor, não estejam já a visualizar o meu rabo em tamanho de autocarro. Aliás,
    de preferência não o visualizem de todo (tarefa difícil dado não ter ainda falado
    em mais nada para além da gigantez do meu rabo)). Mas, verdade verdadeira é que
    ele está efetivamente difícil de arrumar. Sinto-me solidária com o conjunto de
    mulheres que ouço, desde pequena, dizerem “tudo o que como a mais vai diretamente para o
    rabo” e ainda mais solidária com aquele outro conjunto que diz “eu cá engordo racionalmente:
    em todo o lado”.

    Louvados sejam os modelos de calças relaxed que populam as lojas este ano. Para além de sentir que ando
    à solta (men, you are not alone), gosto de pensar que é um sinal de que os
    estilistas estão a sorrir levemente do alto dos seus estiradores, enquanto rabiscam
    corpos esbeltos em trajes coloridos com a mão direita e seguram um cigarro
    fumegante com a esquerda, pensando para si mesmos, sim Rita, é OK estar gorda, podes relaxar.

  • E depois querem que eu seja copo meio cheio

    Vibrei de emoção quando me apercebi que o pianista do sítio onde estou a almoçar estava a tocar o Time After Time da Cindy Lauper. Um senhor crescido e tudo! A minha esperança de que a música dos 80s regresse para governar o mundo renasceu com força e cabelos volumosos à la Jon Bon Jovi.

    No entanto, rapidamente um turbilhão de notas chorosas substituiu a sonoridade perfeita da Cindy assim que os Jardins Proibidos ecoaram no centro comercial. Continuei a ruminar a minha alface, duplamente infeliz por me ter apercebido que sabia a letra toda. 
  • Pensei que já tinha visto tudo, até me agarrarem no Saldanha, pedirem ajuda e não me dizerem obrigado.

    Felizmente, só guardo rancor das coisas mais estúpidas.


    EXT. SALDANHA – DIA


    SENHORA de meia idade de ar atarantado, como quem se vê perdida no meio de uma rua apertada ladeada de arranha céus, agarra braço de JOVEM esbelta e de ar inteligente que passava por ela naquele instante. 

    SENHORA
    Pastelaria Versailles?

    A JOVEM contempla o seu braço torneado pela manápula alheia e sacode-o com um gesto rápido, de narinas dilatadas, e fala sem sorrir.

    JOVEM
    Do outro lado da avenida. 

    A SENHORA afasta-se sem mais dizer e volta a olhar para o topo dos prédios.




    Aparentemente, não, não vi tudo. Não vi o Snatch até ao fim ainda. 
  • A Rita vai a S. José

    Porque a minha manhã de terça-feira estava a ser demasiado monótona, decidi animá-la com um pequeno acidente pessoal e uma visita a S. José, com direito a mini-pânico e soporífero durante uma hora.

    Tenho a dizer que foi uma experiência extremamente positiva, não só por ter tido a oportunidade única de me pavonear pelas urgências, enquanto envergava o pijama xxxL e chinelinhos de papel crepe oficiais do hospital, mas também por ter tido a sorte de ficar arrumada entre uma senhora de bigode e um senhor que tinha engolido várias centenas de objetos estranhos e sobretudo por, a partir de hoje, poder dizer que fui à plástica antes dos 30.