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  • Ainda por cá (felizmente)

    E de repente os 39 estão à porta. Aquela porta antes d’A Porta. E na maior parte dos dias não é estranho. As marcas em redor dos olhos vão-se tornando presença habitual no espelho e até pontuam os sorrisos de uma forma madura. Os cabelos brancos, mais que aqueles que seria possível contar, não destoam e até acrescentam cor (todas elas, em teoria). Noutros dias, são elementos insuportáveis que poluem a minha juventude eterna. (Pintar ou não pintar, eis a minha mais recente angústia.)

    Nestes momentos, gosto de pensar nos meus colegas de faculdade. Todos a escorregar dos 38 para os 39 durante este ano. Queria muito perscrutar-lhes as mentes e saber como é ter esta idade para cada um deles. (Deviam acrescentar esta pergunta nos próximos censos: Como está a lidar com a vida adulta e o envelhecimento?) Dantes falávamos das férias, das saídas, dos empregos que queríamos e das direções que sonhávamos, de quem gostava de quem, de quem tinha acabado com quem, de quem andava enrolado com quem. Agora falamos das conquistas dos filhos, dos horários das empregadas, dos aspiradores turbo sem fios, de quem gosta de quem, de quem acabou com quem, de quem anda enrolado com quem.

    Nunca eu sonhei em fazer 39. Não por algum medo de lá não chegar. Apenas pela incapacidade de projetar uma realidade tão distante e sobre a qual sabia tão pouco. Ou se calhar até sabia algo, mas à medida que assistia aos pais (os das vida real e os da ficção) a viverem as suas vidas e fazia o meu caminho na direção desse número, apercebi-me de que o que acabava por viver se revelava sempre diferente do que tinha imaginado que iria ser. Suponho que algures no tempo, tive de os abandonar como referência e aceitar que a minha viagem é feita num mapa só meu.

  • Setembro

    Estarei só no meu pensamento de que podia encher uma turma inteira de bonecos de peluche de raiz com todo o cabelo que me está a cair?

  • Ainda assim, sou feliz

    Ser mulher é olhar para o telefone – que nos diz “a sua menstruação pode começar hoje” – e pensar que o hoje que aí vem são 14h dentro de um avião e passar pela loja de saúde do aeroporto e só encontrar pensos que a A5 usaria se tivesse o período.

  • É isto ou respirar profundamente

    Há frases e palavras que me esgotam mentalmente. Assim de um segundo para o outro.

    Perdi a paciência, talvez (ou nunca a tive e agora perdi só o filtro social que me prevenia de revirar os olhos em público).

    Se leio mais um título sobre “como vai a inteligência artificial mudar [inserir objeto]”…

    Se oiço mais um estrangeirismo desnecessário (“É uma pain do cliente”)…

    Se oiço mais um comentário de homens que dizem “eu não quero ser sexista, mas [inserir comentário sexista]”…

    Anseio por médicos que prescrevam vídeos de cães e gatinhos em doses diárias obrigatórias para consumir três vezes ao dia depois das refeições, como forma de atenuar o aborrecimento gerado pelo ocasional desfascínio pela humanidade.

  • Um lembrete para parar mais e sentir e ver o sol (os sóis) da vida

    Perco-me em muitos medos de coisas que podem não vir a ser, esquecendo-me de que o que é já aqui está para mim e é meu.

  • Ser solteira aos trinta e três (seis)

    Escrevi isto a 1 de agosto de 2019 e nunca o publiquei, sabe a Cher porquê, mas, aos 36,67 anos subscrevo tudo e publico-o com auto-comiseração tranquilidade e ligeiros ajustes assinalados a itálico.

    ~

    É poder sair de casa às 22h30 para ir passear junto ao rio sem que ninguém nos dê sentenças.

    É prazenteirosamente viver numa relação a quatro: Netflix, sofá, torradas e eu.

    É esgotar a televisão a ponto de poder rever Gossip Girl (só porque vi uma foto online do nerd principal e me lembrei que ele era giro).

    É ter as noites sempre livres e poder dizer que sim a todos os convites [gri gri gri].

    É poder fazer piadas que me fazem rir incrivelmente: tenho de ir para casa, estou à minha espera.

    É ir almoçar com amigos e ouvir risos e guinchos, ver abraços e cavalitas de seres produtores de bolhas de ranho que têm sempre apelidos diferentes dos meus.

    É escrever posts num blog à uma da manhã sentada na cama, com Spotify a fazer vibrar as colunas do computador, sem que ninguém diga vem lá p’ra cama.

    É viver de copo meio vazio e aprender a inclinar a cabeça num ângulo ortodoxo que faz doer um pedacinho o pescoço, mas que permite ver que afinal ele está quase cheio.

  • Poder satânico, pelo menos

    Quase nunca na minha vida acredito em deus. Vivo com as certezas simultâneas e contrastantes de que quando morrer vou estar de novo com os meus cães e vou ser só um saco de pó cinzento (ou talvez um esqueleto delgado num jazigo altivo em pedra bonita, só semi-escurecida ainda – se é para ir, vamos com pompa – ainda não decidi).

    Mas, em certos outros dias, creio fervorosamente e sem dúvidas em deus e faço-o porque recebo sinais: as borbulhas que nascem dentro das orelhas.

    Acredito que são fruto de um poder que tudo observa e nos chama à razão através desta dor aguda e incisiva, que só dói quando lá se toca, que nem um lembrete dos traumas passados que evitamos resolver.

    Portanto, agora estais por dentro do segredo.

    Peace.

  • Forever-húmido

    Aquele estado de existência em que o cabelo pós-banho não está ainda bem seco, mas já se começou a transpirar.

  • Cortei o cabelo

    A desilusão nos olhos do senhor cabeleireiro quando viu que, depois da minha caminhada de quatro minutos para ir levantar dinheiro, as ondas que ele tanto demorou a fazer eram apenas meros resquícios de ondas, praticamente não mais do que aquelas ondinhas de mar do Algarve em dia de sopa marítima, quase igualou a desilusão no olhar da minha mãe quando no 9° ano lhe disse que não ia para ciências.

  • Earth to Rita

    “É a Rita?”

    ”Sou a Rita.”

    Às vezes preciso que o senhor do uber me lembre.